Desafio “Mar de Plástico: até quando virar as costas?” será realizado pela nadadora Juliana Germann e terá percurso até a Ilha do Campeche. Foto: Divulgação
No dia 11 de outubro, em Florianópolis, o mar será palco de um gesto tão simbólico quanto urgente. A jornalista e nadadora de águas abertas Juliana Germann realizará a travessia até a Ilha do Campeche, em Florianópolis, de uma forma incomum: nadando o estilo costas durante todo o percurso. O desafio, intitulado “Mar de Plástico: até quando vamos virar as costas?”, nasce como um alerta diante do avanço da poluição plástica nos oceanos e da indiferença que ainda cerca o tema.
“Os nossos mares estão se tornando lixões a céu aberto, principalmente pela poluição plástica, Mais de 80% do lixo nos oceanos é plástico e vejo isso de perto nos treinos e nas travessias”, lamenta a jornalista.
A escolha da data não foi ao acaso. Em 12 de outubro é celebrado o Dia Nacional do Mar, criado para estimular a reflexão sobre a importância e a preservação dos oceanos. Segundo a jornalista, o cenário não poderia ser mais preocupante. De acordo com o relatório “Fragmentos da Destruição”, da ONG Oceana, o Brasil despeja cerca de 1,3 milhão de toneladas de plástico no oceano anualmente, sendo o oitavo maior poluidor global. Mais de 50% é de uso único, ou seja, descartáveis, como embalagens, sacolinhas, canudos.
“O maior absurdo é que isso faz parte da nossa rotina, muito por conta de uma legislação omissa, que não faz nada para proteger a nossa fauna e flora marinha, enquanto o nosso mar sufoca”, alerta. “Se o ritmo atual continuar, haverá mais plástico do que peixes nos oceanos até 2050”, conta ao citar o estudo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.
Em Florianópolis, um dado chama atenção: a praia do Pântano do Sul registra uma das maiores concentrações de microplásticos do país, evidenciando a gravidade do problema também em nível. O estudo foi divulgado em 2024 pela ONG Shepherd Brasil, em parceria com o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP).
Foto: @ricardoaugustofoto/@focoradical
“Cansei de falar sobre a poluição dos mares e oceanos, seja nas redações, com políticos e diferentes entidades. Escuto muito ‘pois é’, que para mim também é uma forma muito cruel de virar as costas. Esse desafio é quase uma súplica para que a gente pare de ignorar o que está acontecendo.”
A iniciativa será realizada de forma individual, mas com o acompanhamento da equipe do Treino Travessias, projeto pioneiro em aulas de natação no mar, coordenado pelos nadadores Regina Feldmann e Maurício Cangiani. Mais do que uma prova de resistência, a travessia propõe uma reflexão incômoda. Ao nadar de costas, Juliana transforma o próprio corpo em metáfora de um comportamento coletivo.
“Essa travessia é um ato simbólico, um pedido de atenção, um convite para agir, seja em nossa educação, na forma como descartamos o nosso lixo, e principalmente no endurecimento de regras quanto ao uso de plástico em nosso dia a dia. É inaceitável que os nossos estabelecimentos comerciais ainda usem sacolas plásticas livremente. Essa prática já é totalmente proibida em outros países, mas não temos nenhuma lei, nenhuma regra, nada. Tudo incipiente ou ainda sendo estudado. Falta muita vontade política, enquanto os nosso mares apodrecem com o plástico”, desabafa.
Nadadora de longa data, com uma vitoriosa carreira esportiva na adolescência, Juliana convida o público a participar ativamente da causa, seja compartilhando a mensagem, seja acompanhando o desafio presencialmente, na praia do Campeche. A ação conta também com o apoio da Academia Marcelo Amin, responsável pelo treinamento da atleta.
“O Marcelo Amin e a Regina Feldmann me conhecem desde criança e foram meus ídolos na época de atleta. É um orgulho contar com parceiros que acreditam na força do esporte como ferramenta de conscientização”, agradece a jornalista.
Em um cenário em que a poluição avança rápido e de forma avassaladora, o movimento propõe uma ruptura: parar de ignorar e começar a agir. “Chega de virar as costas. Os nossos mares não podem mais esperar.”
Publicado em 09 abril de 2026
