Nas praias, no Centro, em eventos e nas ruas mais movimentadas de Florianópolis, homens e mulheres com camisas identificadas passaram a integrar a rotina da cidade durante a temporada de verão. Eles não são policiais nem agentes políticos efetivos, mas têm algo em comum: o desejo de se sentirem úteis e contribuírem para a convivência coletiva. São os agentes comunitários de segurança pública voluntários, iniciativa que ganhou forma a partir de histórias pessoais, vocações diversas e a vontade de ajudar.
Estudante de psicologia, Luana Helena Rocha Juttel conhece o projeto por meio do edital em dezembro do ano passado. Fez parte do processo seletivo e capacitação para hoje atuar diretamente na orientação da população. “Nós trabalhamos muito com orientadores sobre leis que foram sancionadas recentemente, como a questão das caixas de som e dos animais na praia. As pessoas procuram a gente para tirar dúvidas, saber onde ficar, banheiro, como funciona as regras. É uma forma de ajudar todo mundo a conviver melhor”, explica.
Para ela, o contato com moradores, turistas brasileiros e estrangeiros torna a experiência ainda mais rica. “Cada lugar tem um perfil diferente. Isso agrega muito como vivência e faz parte do que eu escolhi como profissão para seguir”.
PROJETO-PILOTO É PROMISSOR
Inspirado em experiências adotadas em cidades de outros países, o projeto dos agentes comunitários de segurança pública voluntários foi estruturado com base na Lei do Voluntariado (Lei 9.608/98). Em Florianópolis, a iniciativa desenvolvida pela prefeitura direcionada à temporada de verão 2025/2026, com foco no apoio à Guarda Municipal, à Defesa Civil e à fiscalização, reforçando ações de ordem pública e orientação à população.
“O fato de ser todo ser humano gostar de sentir útil”, afirma o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto (PSD), que avalia de forma positiva as primeiras semanas de atuação do grupo de voluntários.
Histórias que se complementam
Para Daniel Barcelos, editor de vídeo e morador da Capital, o voluntariado representa o primeiro contato com ações diretas em campo. Ele, que é editor de vídeo, passa a equipe da Guarda Municipal em um futuro próximo, destaca a aprendizagem. “É desafiador e gratificante. A gente vê como funciona a cidade”, afirma.
A experiência, segundo Daniel, também reforçou o interesse em ingressar na Guarda Municipal como servidor. De acordo com Topázio Neto, o turismo é um setor importante para a cidade e tratado como atividade econômica. “A opinião do cliente, nosso turista, é muito importante. Eu quero que ele venha esse ano, que seja o promotor do destino para voltar e trazer mais alguém no ano que vem”, planeja o prefeito.
Capacitação que faz diferença
Formada em mediação de conflitos, Manuela Piva valoriza a dinâmica de trabalho. “Cada dia é em um lugar diferente. Praia, centro, fiscalização. Não tem rotina”, resume. “A troca com os outros voluntários também conta muito. A gente fica sempre aprendendo”, diz a jovem que mora em Biguaçu e faz escala de 12 horas como voluntária. “É algo que sempre gostei de fazer: ajudar o cidadão e contribuir com a ordem pública”, completa Manuela.
Sempre atenta às necessidades
Bombeira voluntária na Barra da Lagoa, Janaína Zilda Santos destaca a troca com a população como principal valor da atuação. “Nosso trabalho é orientar com educação e respeito. É uma troca: a gente ajuda e aprende ao mesmo tempo”, diz. Natural de Florianópolis, ela avalia que o projeto contribui para enfrentar os desafios do crescimento urbano e reforçar a sensação de segurança.
Experiência de vida
Com passagem pela área socioeducativa, a professora Níbia de La Vega vê no projeto um reflexo direto na percepção de segurança. “As pessoas agradecem, perguntam se vai continuar e dizem que as praias estão mais organizadas. Isso traz segurança para moradores e turistas”, observa.
Para ela, o voluntariado vai além da fiscalização e se transforma em acolhimento. “Sempre quis ser voluntária, e quando vi o edital resolvi participar e estou cada dia mais feliz em fazer parte”.
Para ela, poder dizer que está ativa, em contato com as pessoas e representando a cidade é uma grande história para contar. “É um projeto que já deu certo e que tem tudo para se expandir”, concluiu Níbia.
Entrevista Topázio Neto, prefeito de Florianópolis
Em Florianópolis, os voluntários passaram a atuar de forma organizada no apoio à Guarda Municipal, à Defesa Civil e aos serviços de fiscalização, reforçando ações de segurança, ordem pública e orientação à população em áreas de grande circulação durante o período de alta temporada. Satisfeito com o que já está em andamento, o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, dá mais detalhes sobre o projeto.
Como teve início o projeto dos agentes comunitários de segurança pública voluntários?
A ideia original de trazer o projeto para cá é da vice-prefeita, Maryanne Mattos (PL). Ela esteve em Israel e viu como é importante o movimento de voluntários e como eles ajudam as cidades a se tornarem lugares melhores. A partir da Casa Civil, criamos um projeto de lei que institui os voluntários na área da segurança e da ordem pública, e o resultado tem sido um sucesso absoluto.
Quais eram as expectativas iniciais e como os voluntários são habilitados?
Nossa expectativa inicial era de cerca de 400 inscrições, mas tivemos mais de 1.000 interessados, mais do que o dobro do previsto. Os voluntários passam por um processo seletivo, no qual são avaliados critérios como a inexistência de antecedentes criminais e a apresentação de exame toxicológico negativo, entre outras exigências previstas no edital. Após a seleção, eles realizam um curso de capacitação e, ao final, são habilitados como voluntários. A partir dessa etapa, passam a cumprir as escalas de serviço organizadas pela Secretaria de Segurança e Ordem Pública, que é responsável pela gestão dos agentes voluntários.
O projeto vai atender apenas a temporada de verão?
Não. A ideia é manter o projeto ao longo de todo o ano. Hoje temos entre 100 e 150 voluntários por dia na cidade. Eles devem auxiliar nos pontos mais críticos do trânsito; nas praias públicas; nos eventos da cidade, como o Carnaval; nos parques aos finais de semana, entre outras frentes.
Qual é o perfil dos voluntários?
É um perfil extremamente democrático. A maioria é formada por socorristas, mas há homens e mulheres de diversas áreas: geólogos, sanitaristas, professores, engenheiros e especialistas em tecnologia, por exemplo. Esses profissionais também auxiliam a Guarda Municipal no desenvolvimento de sistemas de controle das escalas e da operação. É muito valioso, porque você pega uma faixa da população muito capacitada, pessoas que conhecem o mundo inteiro e estão trazendo qualificação para servir nossa cidade.
Como eles atuam no dia a dia?
Os voluntários utilizam camisetas que os identificam, e a população já passou a recorrer a eles com frequência. Eles dão apoio aos fiscais, esclarecem dúvidas e orientam moradores e turistas. Também podem receber denúncias ou demandas que seriam encaminhadas à Guarda Municipal. É importante destacar que eles não possuem poder de polícia, nem atuam como Guarda Municipal. São um grupo de apoio, que ajuda a ampliar o alcance do serviço público.
Eles recebem algum tipo de ajuda de custo? Como funciona essa parte financeira?
Sim. Dentro do que a legislação permite e em consonância com o modelo dos bombeiros comunitários, os voluntários recebem uma ajuda de custo de acordo com a carga horária cumprida. Para uma jornada de seis horas, o valor é de R$ 125. Para 12 horas, R$ 250. Esse recurso pode ser utilizado, por exemplo, para despesas com transporte e alimentação.
Qual é a avaliação até o momento sobre o projeto e a atuação dos voluntários?
A percepção é bastante positiva. Entre eles, há um forte senso de pertencimento, o que é muito positivo. Eles se dedicam, estudam, se preparam e cuidam do uniforme, indo muitas vezes além do que era inicialmente esperado.
E se alguém tiver interesse em se tornar voluntário a partir de agora, como deve proceder?
Neste momento, não há processo seletivo aberto, já que tivemos mais inscritos do que vagas. Quem tiver interesse deve acompanhar os comunicados da Prefeitura de Florianópolis para as próximas etapas. Estamos preparando novos cursos de capacitação, com maior carga horária e contemplando outras faixas etárias.
A prefeitura já foi procurada por gestores de outros municípios para falar sobre o projeto?
Sim. A vice-prefeita tem sido procurada por gestores de outras cidades interessados em conhecer a iniciativa e solicitar cópia da legislação. Muitos prefeitos querem entender como o projeto funciona. Avaliamos a experiência como extremamente exitosa.
(ND, 09/01/2026)
Publicado em 09 janeiro de 2026
