Trânsito caótico, transportes lotados, vias obstruídas e falta de integração entre os modais: problemas crônicos das grandes metrópoles e que, diariamente, impactam a vida de trabalhadores e estudantes que se deslocam pela cidade. Diante desse cenário, parte dos usuários dos modais públicos passou a migrar para corridas por aplicativo, principalmente de motocicleta, diante da rapidez e do menor custo. Esses são alguns dos levantamentos da pesquisa realizada pelo Programa de Engenharia de Transportes do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Intitulado “Motivações e racionalidades na escolha pela motocicleta como meio de transporte individual na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ)”, o estudo foi apresentado recentemente no evento Rio de Transportes 2025 e envolveu 2.616 motociclistas entrevistados. O levantamento revela que, embora praticamente todos os usuários reconheçam os riscos associados ao uso da motocicleta, fatores como tempo de deslocamento e previsibilidade da viagem pesam de forma decisiva na escolha por esse tipo de corrida.
De acordo Gladyston Ribeiro, professor do programa da Coppe/UFRJ e responsável pelo estudo, esse movimento se intensificou após a pandemia. “Depois da Covid, cerca de 14,5% da população migrou do ônibus para os aplicativos, por fatores como tempo, agilidade e segurança pública, que é uma questão importante no Rio”, afirmou Ribeiro.
Saúde Pública e Transporte
Para além dos impactos práticos no dia a dia, o trânsito também compromete a saúde e a qualidade de vida da população. Cerca de 54% dos entrevistados reconhecem esse efeito, especialmente em deslocamentos mais longos. Entre os sintomas mais relatados estão dores de cabeça, insônia e picos de estresse. “A cada minuto extra no deslocamento, há um custo invisível para a saúde da população e, principalmente, para o sistema de saúde”, alertou o professor.
Os riscos, no entanto, não se restringem aos usuários do transporte público. Para quem migrou para os aplicativos, especialmente as corridas de motocicleta, o perigo de acidentes é elevado. Em 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) gastou cerca de R$ 223 milhões com internações de vítimas de acidentes envolvendo motocicletas, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base no DataSUS.
Para o pesquisador, no Rio de Janeiro, os efeitos dessa migração já são visíveis no sistema de saúde estadual. Dados do Corpo de Bombeiros, utilizados na pesquisa da Coppe/UFRJ, indicam que 77% das ocorrências de trânsito atendidas envolvem motociclistas, resultando em cerca de 80 feridos por dia encaminhados a hospitais municipais. Em unidades como o Hospital Municipal Lourenço Jorge, aproximadamente 90% dos atendimentos da ala ortopédica estão relacionados a acidentes com motocicletas.
As falhas do transporte coletivo
Segundo Ribeiro, a migração em larga escala para o transporte individual é um sintoma de um sistema público falho e mal-estruturado. Viagens longas, áreas subatendidas e a sensação de insegurança durante os deslocamentos estão entre os principais fatores que afastam usuários do transporte coletivo. “O papel das motos é uma solução individual, mas é importante olhar para todo o sistema e para os problemas enfrentados pelos usuários”, explicou. Na avaliação do pesquisador, a falta de integração entre os modais e a imprevisibilidade do horário de chegada dos ônibus estão no centro da perda de passageiros para os aplicativos.
Algumas das soluções propostas pelo professor são corredores exclusivos e faixas preferenciais para o transporte coletivo, a fim de acelerar os trajetos. O aumento da frequência e da cobertura do transporte interbairros também é apontado como essencial, já que esse tipo de deslocamento está entre os mais demandados nos aplicativos. Além disso, a integração física e tarifária entre modais pode diminuir não apenas o tempo de trajeto, como também os custos de viagens mais longas, que exigem o uso de mais de um meio de transporte.
No fim das contas, o tempo é o fator decisivo para quem acaba se arriscando em motocicletas. O estudo mostra que poucos minutos separam os usuários das motos daqueles que utilizam aplicativos: a maioria afirma que deixaria de optar pelas motocicletas se perdesse menos cinco minutos no transporte coletivo. “Ainda não retornamos ao patamar de usuários do período pré-pandemia, e isso é um problema especialmente no Rio de Janeiro. A cidade não apenas perde passageiros para os aplicativos, também perde vidas, em decorrência de acidentes associados a um transporte individual de alto risco”, advertiu Ribeiro.
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